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Exatos oito meses se passaram desde coloquei meus pés aqui na Irlanda e desde então, Dublin tem sido uma espécie de Santiago de Compostela pra mim.

Durante essa caminhada, são inúmeras as lições que eu já aprendi. Uma delas –mas não mais importante– é que o tempo é mesmo algo extremamente relativo. O tempo que passou voando pra mim -e fez milhares de coisas mudarem- é o mesmo que passa devagar para os meus pais e amigos que aguardam ansiosamente pela minha visita.

Não importa de qual perspectiva, a verdade é que uma série de dias já foram enfrentados, o meu visto já está prestes a vencer e a ser renovado e ao organizar toda a documentação necessária para começar o segundo capitulo da minha vida por aqui, eu me peguei refletindo sobre o quão indestrutível eu me sinto agora, depois de todas essas vivências. Sobre como morar fora nos faz criar uma grande resistência para dor.

Eu ainda acho engraçado a maneira com que as pessoas as vezes idealizam o morar no exterior como algo extremamente maravilhoso. Parte da cidade em que eu costumava morar certamente imagina que eu vivo em um lugar onde o frio é o que me deixa mais bonita, onde o fim do expediente vem acompanhado de um café do Starbucks e onde eu como queijo fino e bebo vinho todos os dias no jantar. Tem gente que ainda acredita que em país de primeiro mundo não existe problema, tristeza, corrupção.

Aqui do outro lado do oceano nós realmente não pagamos muito caro em vinhos, queijos e perfumes importados como no Brasil, e motivo é bem simples, tudo isso é produzido aqui. Entretanto, nós pagamos um preço alto para viver coisas inimagináveis, que nem sempre são as melhores ou ao menos tão prazeirosas quanto um aroma Dior.

A gente paga um preço alto para nos vermos em posições que jamais esperaríamos nos encontrar vivendo. Sentimos coisas que nem sabíamos que eram possíveis serem sentidas. Tudo parece uma surreal grande descoberta e de certo modo essa não é uma conclusão tão equivocada assim. Afinal, grande parte disso foi surreal até chegarmos aqui.

Uma vez que o inimaginável se torna real e nós conhecemos –ou enfrentamos– um pouco mais do que existe fora da nossa zona de conforto, nos tornamos quase que indestrutíveis.

Mal sabem esses que me imaginam vestindo caros óculos escuros com uma taça lustrada na mão, que desde que cheguei aqui já me vi, vivi e senti coisas que a internet jamais será capaz de transmitir.

Já tive que ouvir, ver e conhecer pessoas e opiniões desumanas. Já tive que ficar quieta quanto a essas situações. Mal sabem esses que foram justamente com essas pessoas que eu aprendi a ser ainda melhor.

Mal sabem esses que não foi uma ou duas vezes que eu acordei em um lugar desconhecido me sentindo -quase que- completamente sozinha. E que por causa disso, eu já paguei um aluguel mais caro que um hotel 5 estrelas. Mal sabem esses que eu já fiquei sem lugar pra morar duas semanas depois de ter me mudado. Que eu já fiquei doente sem ter ninguém pra me cuidar.
Mal sabem esses que eu já sofri aqui por algo que aconteceu aí, bem longe. Sofri por estar aqui e não pude fazer nada. Eu também j
á vi uma das minhas melhores amigas descobrir gravidez, de longe. Já vi uma pessoa querida partir, de longe. Eu não pude fazer nada. 

Mal sabem esses que eu já vi -e também senti- o meu (ex) namorado ir embora; E não muito tempo depois,  já o vi encontrar outra namorada que não é nada e nem um pouco do que eu esperava que a minha substituta fosse. Que bom que o tempo é mesmo relativo, assim, mesmo sem esperar ou desejar, eu também já me permiti apaixonar de novo.

Eu já dormi em um chão de estação de trem e minutos depois acordei com a polícia nos cutucando falando em francês. Já fiz novos grandes amigos que me acompanharam nessas loucuras cotidianas e já chorei ao os ver partir. De volta pra casa.

Já viajei quatro horas por dia para trabalhar duas porquê precisava de um documento. Todos os dias por mais de mês.

Mal sabem esses que eu já chorei. Muito. Já chorei muito internamente.

De exaustão. De tristeza após receber ligações da minha mãe chorando de saudades. De me sentir livre e mesmo assim não conseguir mudar o mundo. De felicidade ao me olhar no espelho, enxergar o eu que existe dentro de mim e por um triz quase não me reconhecer.
E nesses caminhos que o estilo de vida que eu escolhi seguir vez e outra me apresenta, eu tive o prazer de conhecer alguém que nunca perde a oportunidade de me lembrar o quanto eu sou uma pessoa poderosa.

Eu agradeço a ele pelas palavras e a Irlanda por ter me transformado tanto assim. Foram através de todas essas experiências, boas mas principalmente as ruins, que hoje eu construi o meu próprio escudo. E ele é leve e poderoso, assim como essa nova eu.
Aqui é onde eu escrevo sobre as coisas mais lindas da minha vida, e por favor, não pense que esse texto não é mais um deles.

Eu só precisava  aqui deixar registrado o tamanho da minha satisfação por ter uma bagagem pessoal que cresce mais a cada dia. Uma babagem repleta de coisas valiosas que assim com eu disse anteriormente, não pesam.

Comigo eu carrego um escudo que servirá pro resto da minha vida e quem sabe até mesmo na próxima. Eu carrego um passaporte cheio de carimbos que serão para sempre lembrados. A minha bagagem ainda é pequena mas eu juro, ela é repleta de coisas incríveis. Hoje eu apelido a minha bagagem de liberdade e é justamente por isso que ela não pesa. A minha liberdade é leve e voa sempre junto comigo.

Vez e outra ainda me perguntam se realmente vale a pena deixar tudo pra trás pra viver aqui, em um continente que muitas vezes mais se parece com uma outra dimensão. Por isso eu precisava aqui deixar registrado.

Sintam-se a vontade para ler esse texto quantas vezes quiserem e se ainda assim houverem dúvidas, não hesite em perguntar.

A resposta vai sempre, o meu mais sincero sim.

 


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sexta-feira, 14 de outubro de 2016.

Que texto maravilhoso! Eu nunca fiz intercâmbio, mas sei que nem tudo é flores e que tem muita coisa difícil de viver. Sei que não é fácil ficar longe das pessoas que amamos e que nem sempre sabemos o quanto podemos confiar nas novas que conhecemos. Mas como você mesma sabe: isso cria bagagem, experiência e amadurecemos demais!

Desejo que tudo sempre dê certo pra ti e que tu continue vivendo experiências maravilhosas. Beijos <3


sexta-feira, 14 de outubro de 2016.

Tô quase chorando aqui Emille. Realmente a gente (ou só eu) acabamos vendo só o lado bom da vida dos outros quando na verdade todos têm problemas. Todo o mundo tem problema e teimamos por acreditar que só a gente é coitadinho. Mas te admiro por ter passado por tudo isso e ainda continuar essa jornada. Nunca comentei por aqui, mas te acompanho há um tempo e te admiro cada vez mais! Continue sempre dizendo sim! ♥


sexta-feira, 14 de outubro de 2016.

Emille, que palavras profundas. Um dos assuntos que mais mexem comigo é o tempo e, sim, ele é bem relativo. Leio as minhas coisas do ano passado e vejo o quanto mudei em pouco mais de um ano, isso sem nem ter tido essas experiências como você.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016.

Emille, que palavras profundas. Um dos assuntos que mais mexem comigo é o tempo e, sim, ele é bem relativo. Leio as minhas coisas do ano passado e vejo o quanto mudei em pouco mais de um ano, isso sem nem ter tido essas experiências fora do país como você. É bonito e raro ler um texto tão sincero como esse. Sinta-se abraçada e, se tiver que chorar, chore mesmo. E, quando sorrir, que caia na gargalhada. Espero que você ainda tenha muito mais aventuras, mesmo que elas envolvam dormir no chão, porque, no fim, vai ficar tudo bem ❤❤❤❤❤


sexta-feira, 14 de outubro de 2016.

Em, adorei ler esse texto. Ele é muito sincero e você conseguiu expressar muito bem seus sentimentos. Acho incrível toda essa bagagem pessoal que você tem construído, as histórias que tem pra contar e da sua coragem. Beijos!!


sexta-feira, 14 de outubro de 2016.

Como pode um texto sobre dificuldades ser tão lindo assim?
A tempos acompanho o seu blog (e de quebra, o seu intercâmbio) e sempre venho no seu blog quando preciso me sentir mais leve. Você passa, e sempre passou, essa leveza de viver. E não foram poucas as vezes em que entrei aqui e pensei “a vida dela deve ser perfeita, por isso.”
Que sentimento mais lindo despertou em mim ver que você passar por dificuldades, assim como todos nós (a internet tem dessas de nos fazer idealizar a vida dos outros, que só vemos pedacinhos lindos) e que, obviamente, foram mais essas dificuldades que te fizeram/fazem ser assim: cheia de vida!
Adorei o post e adoro seu blog! Espero que a vida ainda te presenteie com muitas aventuras e companhias maravilhosas!


domingo, 16 de outubro de 2016.

Que post lindo , to super ansiosa para o meu intercâmbio , e esse post é inspirador . Espero muita coisa do intercâmbio e uma delas é o crescimento pessoal , adoro seu Blog Emille e também vou pra Dublin , na meio que criei meu blog inspirada em você <3 .


quinta-feira, 20 de outubro de 2016.

“Hoje eu apelido a minha bagagem de liberdade e é justamente por isso que ela não pesa. A minha liberdade é leve e voa sempre junto comigo” MANO! Há alguns anos eu acompanhava seu blog mas já faz um tempo que eu parei de visitar QUALQUER BLOG, daí hj eu vou ver as minhas páginas no “Favoritos” e lembro da sua, PARA QUE? Estou com uma vontade louca de viajar e estou agindo para que isso ocorra, mas seu texto aplicou ainda mais ansiedade e vontade <3 MARAVILHOSO ESSE TEXTO E TD MUNDO DEVIA LÊ-LO. Sua história é incrivel!


quinta-feira, 3 de novembro de 2016.

Que texto Emi! As pessoas só sabem ver o lado ”bom” das coisas e não imaginam a dificuldade e obstáculos que passamos pra conseguir algo que queremos. Muito bom saber que a Irlanda esta te fazendo bem e te transformando em alguém AINDA melhor! ♥
Beijos
http://www.desencana.com


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016.

Oi Emile! Descobri seu blog hoje e já dei de cara com esse texto muito bom que expressa muita coisa do que sinto morando fora também. Gostei muito do seu blog, jeito de escrever e das fotos 🙂
Beijos!


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017.

Que texto incrível, vejo te acompanhando cada dia mais só pelo fato de escrever coisas incríveis e ter o dom de fotografar a vida, dá forma mais bonita. Estarei chegando em Dublin logo logo e esse texto me fez refletir. Um grande beijo e sucesso!!!

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